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A indústria cosmética e o excesso de embalagens

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O desafio urgente é controlar o volume de produção e evitar que as embalagens continuem a poluir os oceanos

Beleza limpa, slow beauty, cruelty free, orgânico, artesanal. O universo da beleza tem muitos recortes no que diz respeito à sustentabilidade, fundamentais para o equilíbrio ambiental – ainda mais em uma indústria tão grande. Assim, não há mais brecha para negociações: procurar ingredientes e formulações que causem o mínimo de danos à saúde e ao meio em que vivemos é questão vital.

Mas, nesse contexto, existe uma discussão ainda mais pulsante no momento: a do descarte das embalagens. Basta olhar a cena por cima para concluir que a causa é urgente. Precisamos repensar o consumo em quantidade e em qualidade por aqui. Principalmente quem ama o banheiro lotado de produtos, não resiste a uma novidade no nécessaire, pensa primeiro no hype e depois no resultado do cosmético. Para mergulhar nos questionamentos e fazer parte desse movimento de recuperação, é fundamental que a gente entenda o nosso papel de consumidor, direcionando nossas escolhas da maneira mais consciente possível.

Abrimos aqui uma conversa sobre práticas possíveis e ainda apresentamos produtos feitos por empresas que olham com muito carinho para o destino de seus resíduos.

Segundo dados da Euromonitor, empresa inglesa de pesquisa de mercado, o Brasil é o quarto maior mercado de beleza do mundo (atrás de Estados Unidos, China e Japão) e o quarto país na fila dos que geram mais lixo plástico, de acordo com levantamento do WWF (Fundo Mundial para a Natureza) feito em março de 2019. Também foi avaliada a relação de mais de 200 países com o plástico, com base nos dados do Banco Mundial, e chegou-se à conclusão de que cada brasileiro produz, em média, 1 quilo desse tipo de lixo por semana.

Para resolver questões tão grandiosas, são necessárias atitudes amplas e coletivas.

Está claro que a indústria do plástico e a de produtos de higiene e beleza precisam se mobilizar com mais vigor. “Claro que todo material gera impacto, na extração, na produção, no beneficiamento, no descarte. Mas o plástico é o resíduo encontrado em maior quantidade no lixo. Ele persiste no ambiente eternamente e foi historicamente pouco reciclado”, analisa Mateus Mendonça, consultor de desenvolvimento sustentável da Giral, consultoria de inteligência de recursos e negócios de impacto. “A indústria cosmética não é a única responsável, mas responde por boa parte desses excessos, utiliza materiais diversos, complexos, e tem tratado dessa pauta há muito pouco tempo”, completa.

Escolher

Há um movimento importante, e coerente, na indústria natural e orgânica que trata da eliminação quase total de embalagens com novos formatos. O exemplo mais animador é a nova geração de sólidos, produtos em barra geralmente envolvidos por papel. Nessa categoria, estão xampus, condicionadores, hidratantes, máscaras faciais e maquiagens que já viraram habitués da bancada dos early adopters. Mas, apesar de parecer tentador transformar tudo em barra e acabar de vez com os envases, essa não é uma realidade possível.

Iniciativas igualmente importantes, no entanto, cruzam o horizonte desse mercado. Vidro e plástico biodegradável são ótimas opções para envasar produtos, mas ainda não foram absorvidos em volume pela indústria. “As grandes empresas precisam pensar em ações que cheguem à base da população. Elas podem impactar em massa o consumidor, que vai ter acesso a produtos de gestão responsável em larga escala e mobilizar outros produtores a seguirem essa linha”, alerta Isabela De Marchi, consultora e especialista em sustentabilidade. “Existem embalagens inteligentes, com impacto reduzido, como as dos produtos da linha Sou, da Natura, que têm 70% a menos de plástico. Outra boa iniciativa são as retornáveis, que oferecem descontos ou benefícios para quem leva os frascos vazios para troca. As empresas do Grupo Boticário, incluindo Quem Disse, Berenice?, por exemplo, recebem qualquer embalagem, até de outras marcas, e encaminham para o descarte correto.”

Isso sem falar nos refis, que já garantem experiência similar aos envases regulares, com um impacto muito menor. Segundo o LCA Centre, grupo holandês que estuda o impacto ambiental das embalagens no mundo, cerca de 70% das emissões de carbono do setor de beleza poderiam ser eliminadas se os consumidores adotassem refis de produtos.

Reduzir

Para garantir menos resíduos, a lógica é simples: consumir menos. E isso não tem a ver com privação. A indústria da beleza tem muito a ver com desperdício, compras por impulso e substituições antes da hora. Marcela Rodrigues, especialista em clean beauty, bem-estar e sustentabilidade e fundadora do A Naturalíssima, chama atenção para os excessos. “Não adianta trocar 300 produtos de beleza por outros 300 produtos naturais e orgânicos. Em um primeiro momento, você reduz o impacto, mas, se pensar na extração de insumos do meio ambiente, continuará reforçando a lógica do desperdício. Nem todas as marcas rastreiam suas produções e, assim, perdemos o controle do consumo”, diz.

Marcela também lembra que uma parte importante das boas práticas de sustentabilidade inclui incentivar marcas que estão enxugando suas linhas e otimizando seus portfólios e perceber que produtos naturais são multifuncionais na essência. Se cada produto da sua prateleira tiver duas funções, você já cortou seu arsenal pela metade.

Reciclar

Uma das maneiras de as empresas contribuírem para os processos de reaproveitamento é desenhar o produto com potencial de reciclagem no pós-consumo. “Embalagens que usam plásticos específicos, difíceis de serem reabsorvidos pela cadeia, dificultam o processo. O vidro de perfumaria é um fator crítico. Colorido, ele não pode ser misturado em processos regulares porque os fornos têm muita especificidade técnica”, explica Mateus Mendonça. Sem falar que o fato de o produto ser reciclável não significa que ele será reciclado.

Segundo levantamento do WWF, o Brasil produz 11,3 milhões de toneladas de lixo plástico por ano. Desse total, mais de 10,3 milhões de toneladas são coletadas, mas apenas 145 mil toneladas (1,28%) são de fato reaproveitadas. “No Brasi, ainda há muitas lacunas na regulação pública sobre os investimentos de coleta seletiva. Nossa Política Nacional de Resíduos fala de uma responsabilidade compartilhada, mas ninguém assume o compromisso integralmente”, finaliza Mateus.

 

 

 

 

 

Fonte: Marie Claire 17.11.2020

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