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Início » Machismo e preconceito por trás da recusa aos perfumes masculinos
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Fragrâncias Por Janaina7 minutos de leitura04/06/2021 · 15:25

Machismo e preconceito por trás da recusa aos perfumes masculinos

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Desafiado a testar as fragrâncias e descobrir por que os homens resistem a elas, repórter se surpreende e acaba se rendendo aos aromas

Grande parte dos americanos e dos britânicos acha a ideia de um homem que usa perfume altamente suspeita. Profissionais do mundo dos perfumes dizem que essa fatia dos consumidores, perdida para eles, sente-se “intimidada pelo” ou “incômoda com o” produto. Eles sabem o que negócio é e o rejeitam, tanto por princípio quanto na prática.

Isso é especialmente verdadeiro para o tipo particular de americano no qual me enquadro – sujeitos práticos, assalariados e com raízes na Costa Leste dos Estados Unidos. Um tipo que se caracteriza por certa dose de pragmatismo ianque, embora não seja necessariamente um “wasp” (como se costuma chamar em inglês o branco, anglo-saxão e protestante).

Os homens anglo-americanos de classe média não são maioria no mundo, algo pelo qual devemos várias rodadas de sinceros agradecimentos ao divino criador. De qualquer forma, muitos deles têm o dinheiro para gastar e a vaidade na qual gastar.

Mas quando pergunto a amigos e colegas, homens e mulheres, o que pensam de homens que usam perfume, vem à tona, uma e outra vez, o que poderíamos chamar de problema do Pepe Le Gambá [o galanteador e malcheiroso personagem dos desenhos animados]: a ideia do usuário de perfume como alguém arrogante, que se esforça para parecer mediterrâneo, que empesteia o elevador com sua fragrância e que, muito provavelmente, é propenso a flertes indesejados.

Penhaligon: masculino, sem ser desinteressante

Há muito de machismo cabeça-dura por trás da resistência aos perfumes, obviamente. Homens de verdade apenas usam desodorante, e vão em frente. Esse ponto de vista é compartilhado mesmo por alguns homens que usam perfume. Um amigo me disse que os usou diariamente por décadas, mas que diante da ideia de ele próprio comprar um perfume, em vez de ganhá-lo de presente de alguma mulher, sua reação era “um grande ‘de jeito nenhum’”.

Ainda há mais. Pense nas vezes em que você ouviu alguém se referir a um perfume usado por um homem (sem contar referências a perfumes de pai – sobre pais e perfumes falaremos em breve). Qual a proporção de elogios a uma fragrância agradável em relação aos “Meu Deus, Bob do marketing não deveria sair de seu cubículo” ou queixas similares? Uma colega um pouco mais jovem, perguntada sobre o assunto, descreveu-se como “parte da geração traumatizada pelo spray corporal Axe”.

Não há anúncios que bastem para mudar tal mentalidade, por mais que mostrem homens musculosos e bronzeados, em sungas apertadas, saindo de piscinas banhadas pelo sol enquanto palavras sem sentido são sussurradas ao fundo (“descubra a verdadeira essência de uma nova jornada, para sempre”, e por aí vai).

Preconceitos

Foi com todos esses preconceitos em mente que eu, um homem que só usa desodorante, assumi a responsabilidade desta tarefa. Obtive nove novos perfumes, alguns masculinos, outros unissex, e, sem preparação especial alguma, comecei a cheirar. “Sei do que eu gosto” é o lema universal do inculto insensato, mas se a frase não se aplicar a uma fragrância que se passa no pescoço a que mais se aplicaria?

Bem, quanto a isso, pelo que sei, psicólogos e neurologistas descartaram a ideia de que nossa língua determina o que pensamos. Pessoas que perderam sua capacidade linguística por derrames conseguem pensar perfeitamente. No meu caso, contudo, posso relatar que a falta de vocabulário para diferenciar odores dificulta não apenas descrever o que estou cheirando, mas até dizer se eu gostei ou não.

Por exemplo, o Mixed Emotions, da Byredo, (178 libras, que são US$ 252, na byredo.com). Fazendo uma experiência “cega” (a partir de uma tira de papel com o nome escondido do outro lado), minha esposa Wylie e eu chegamos aos seguintes adjetivos: almiscarado, flores estragadas, canela, cheiro corporal, remédio, xixi de gato, eucalipto e remédio de novo. Aqui está o que a sinopse de marketing aponta: chá-mate, groselha preta, chá preto do Ceilão, folhas de violeta, bétula, papiro. De fato, são “Mixed Emotions” (emoções mistas). Claramente, ambos estávamos à deriva.

Costa Azzurra, da Tom Ford: fragrância fácil de desvendar

Alguns foram mais fáceis, em particular, os mais ensolarados e frescos, como o Costa Azzurra, da Tom Ford (85 libras, tomford.co.uk), o Neroli Sun, da Sunspel (90 libras, sunspel.com) e o Imagination, da Louis Vuitton (200 libras, louisvuitton.com, disponível a partir de 1º de junho). O Costa Azzurra se revelou bem doce e cítrico, com leves nuances terrosas. A empresa fala em sempre-verde, cítrico, cipreste e carvalho. Apenas pude sentir os cheiros de madeira ao voltar a cheirá-lo de novo, pensando em detectá-los; no Vuitton, eles se sobressaíram muito mais.

O Neroli foi mais interessante, com muitos desses mesmos cheiros, mas com um toque adicional vegetal que não consegui identificar. Depois, li que era o vetiver, uma grama usada para dar aos perfumes um cheiro campestre. Com essa palavra adicionada a meu vocabulário, decidi que gostei da fragrância. Esse mesmo cheiro é o mais distintivo, junto com o de sândalo, no The Inimitable Mr Penhaligon, da Penhaligon (204 libras, penhaligons.com), outro de meus favoritos, que me “bateu” (para entrar no linguajar do marketing) como sendo masculino, sem ser desinteressante.

Neroli Sun, da Sunspel: do grupo de aromas ensolarados e frescos

Minha esposa e eu convergimos em escolher como preferido dentro do grupo o Brioni (70 libras, harrods.com) que, para mim, cheirava surpreendentemente a água, enquanto, para minha esposa, cheirava a pepino e creme de barbear.

Como descobri depois, cheiros aguados são chamados no meio dos perfumes de “ozônicos” e normalmente derivam de um composto sintético chamado calone, descoberto pela Pfizer. O Brioni também leva ambroxida, que é uma versão sintetizada de âmbar cinza, a substância encontrada no intestino dos cachalotes (tornada famosa pelo capítulo 92 de “Moby Dick”). O cheiro é descrito como cremoso e similar ao da pele.

Houve algumas verdadeiras surpresas. O Matsukita, da Clive Christian (325 libras, na clivechristian.com), gerou a mesma resposta em mim e em minha esposa: óleo de motor (a empresa prefere “resinoso”, com bergamota, pimenta rosa, noz moscada, tons de jasmim; e por aí vai). Mas nós não conseguíamos deixar de cheirá-lo, e ambos gostamos.

Do que eu não gosto? O espectro almíscar/couro/tabaco/especiarias escuras – do Tobacolor (220 libras, dior.com), da Christian Dior, do Paris-Édimbourg, da Chanel, (112 libras, da chanel.com) e do Mixed Emotions – não é para mim ou, pelo menos, ainda não é. Eu me pergunto se eles simplesmente exigem um gosto mais desenvolvido, como é o caso dos queijos de cheiro forte ou do uísque turfado [defumado].

Imagination, da Louis Vuitton: disponível só a partir de 1º de junho

A questão, acho eu, é que posso ter me convertido. Achei o processo fascinante. Cheirar uma fragrância, assim como cheirar um vinho, é uma oportunidade para discernir e surpreender-se. O que é isso? A que aquilo me lembra? Fez-me querer experimentar usando os produtos, [não apenas cheirando-os no papel].

Mas e quanto ao problema da repulsa [aos homens perfumados]? Liguei para Simon Crompton, do site de moda masculina Permanent Style, que realmente sabe algo sobre o assunto, e ele explicou sensatamente que apenas as pessoas muito próximas – que te dão um abraço ou beijo – deveriam sentir o perfume que você está usando. Quem, então, realmente sentirá o produto que você usa? Se você usar da forma certa, você mesmo, seu par, seus filhos e poucos outros.

O que nos leva de volta aos perfumes de pai. Meu pai, muito ocasionalmente, usava a antiga colônia alemã 4711 (acho que ele pingava só uma gota em seu lenço; ele era refinado). Ao trabalhar para este artigo, encomendei uma das lindas garrafas, dourada e turquesa. Senti o cheiro de limões e, levemente, de lavanda e alecrim. É um cheiro mais simples do que qualquer um dos modernos que experimentei, mas o que poderia superar um cheiro que te lembra a alguém que você amou? E não seria ótimo se houvesse um cheiro agradável que fizesse as pessoas se lembrarem de você? Isso, me parece, pode ser a palavra definitiva sobre o assunto.

Fonte: Valor Econômico 26.05.2021

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