Sistemas híbridos e multifuncionais garantem segurança microbiológica, sustentabilidade e reduzem complexidade
Por Estela Mendonça
A preservação de cosméticos é um dos pontos mais críticos do desenvolvimento de formulações de personal care. Para especialistas da indústria, o desafio atual é equilibrar desempenho, segurança, transparência e sustentabilidade. A boa notícia é que já possível avançar na preservação de produtos sem comprometer o “clean”.
Uma nova geração de antimicrobianos já é realidade. Conservantes inovadores ampliam as possibilidades de formulação e representam um importante diferencial competitivo. Muitas marcas vêm apostando em sistemas híbridos e soluções multifuncionais, capazes de reforçar a proteção contra contaminação enquanto melhoram textura, solubilidade e sensorial.
Hurdle Technology

Barbarah Nabarretti, supervisora de marketing da Inolex, aponta a contaminação como uma das principais preocupações entre os desafios das formulações cosméticas e que os sistemas conservantes fazem parte da estratégia para contornar esse problema.
Uma vertente da preservação de produtos cosméticos, segundo Barbarah, é chamada de Hurdle Technology, que consiste na utilização de ingredientes multifuncionais com ação de barreira, criando obstáculos para o crescimento de microrganismos. “Cada ‘barreira’ adicionada à formulação atua na criação de um ambiente inóspito ao metabolismo microbiano, impedindo a contaminação”, explica.
A Inolex traz essa tecnologia com o Spectrastat™ (Caprylhydroxamic Acid (and) Caprylyl Glycol (and) Glycerin), um ingrediente que combina o Ácido Caprilhidroxâmico, ativo em pHs neutros e efetivo contra fungos, além do Caprilil Glicol, diol terminal de cadeia média com amplo uso para controle de bactérias, e Glicerina para redução da atividade de água, maior fator do crescimento de microrganismos. “Em concentrações ideais, estes três ingredientes criam uma barreira de alta eficácia contra a contaminação microbiana”, afirma Barbarah.
A executiva acrescenta que sua versão hidrossolúvel, o Spectrastat™ PHL (Caprylhydroxamic Acid (and) 1,2-Hexanediol (and) Propanediol), associa as três moléculas de forma otimizada. “Essa combinação promove excelente efetividade na conservação de produtos aquosos e possibilita a criação de formulações transparentes, um dos grandes desejos dos consumidores atuais”.
Soluções multifuncionais

Janaína Borges, especialista em P&D da Embacaps, avalia que o consumidor tem buscado cosméticos que se adaptem às suas especificidades, impulsionando a adequação dos ingredientes, especialmente dos sistemas conservantes, essenciais para a qualidade e a segurança dos produtos.
Atenta a esse movimento, a Embacaps, em parceria com a Akema, oferece soluções de alta performance para diferentes formulações. “As soluções do nosso portfólio ampliam as possibilidades de inovação e permitem desenvolver produtos para os públicos mais exigentes”, afirma Janaína.
Entre elas, Janaina destaca o Stabil Zero, preservante composto por Pentylene Glycol, Caprylyl Glycol e Ethylhexylglycerin, que proporciona proteção eficaz contra o crescimento microbiano, com ação emoliente e sensorial aprimorado. Sua composição também favorece lançamentos com o apelo “livre de conservantes”.
Outro destaque da Embacaps é o Kem Nat Lite, preservante com certificação COSMOS, composto por Glycerin Caprylate, Propanediol, Benzoic Acid e Sorbic Acid. O sistema oferece proteção microbiológica efetiva, auxilia na função barreira da pele e contribui para um sensorial agradável, sendo ideal para produtos com elevado índice de naturalidade.
“Os sistemas conservantes tornaram-se um diferencial estratégico. Com o suporte técnico do portfólio Embacaps, os formuladores encontram soluções para desenvolver lançamentos competitivos e alinhados às expectativas do mercado”, completa Janaina.
Escudo molecular

“A conservação moderna vai além de evitar contaminação, é um compromisso com a segurança e a confiança do consumidor”, avalia Joana Scharamm, responsável técnica pela Cosmera Ingredients, pontuando que a escolha do sistema conservante exige uma abordagem precisa, que equilibre eficácia e perfil toxicológico.
Formulado sob o conceito de sustentabilidade e com origem natural, o Evicide® levulinate S eco, segundo Joana, extrai a potência máxima de ácidos orgânicos derivados de fontes renováveis. Trata-se de uma associação estratégica entre levulinato de sódio e sorbato de potássio, que atua como um verdadeiro escudo molecular.
“A estabilidade microbiológica de uma formulação está vinculada ao pH e à sinergia entre os ingredientes. Com o Evicide® levulinate S eco, oferecemos uma proteção de amplo espectro, respaldada por décadas de aceitação regulatória e baixo potencial de sensibilização” afirma Joana.
A especialista da Cosmera explica que, atuando no pH fisiológico da pele, esse sistema conservante penetra nas membranas celulares dos microrganismos, desativando funções vitais de forma suave. Outro aspecto importante é sua versatilidade: Evicide® levulinate S eco líquido de fácil incorporação às formulações, atua eficazmente na faixa de pH 3,5 a 6,0, é COSMOS aprovado e possui um ótimo custo-benefício para formulações rinse-off, leave-on e baby care.
Permitidos, mas sob pressão
A mais recente atualização significativa da regulamentação de conservantes para cosméticos no país foi publicada pela Anvisa por meio RDC nº 528/2021, que define quais substâncias podem ser usadas, em quais concentrações e sob quais condições. A norma lista mais de 50 conservantes autorizados e estabelece limites rigorosos para ingredientes como parabenos, fenoxietanol, isotiazolinonas e liberadores de formaldeído.
O ambiente regulatório foi reforçado com a RDC nº 907/2024, que estabeleceu requisitos de controle microbiológico para cosméticos. Entre as exigências, destacam-se limites rigorosos para a presença de microrganismos e a obrigatoriedade da ausência de patógenos como Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus em determinadas categorias de produtos. Na prática, as empresas precisam comprovar a eficácia de seus sistemas conservantes por meio de testes microbiológicos, além de seguir regras específicas de rotulagem e declarar ingredientes conforme a nomenclatura INCI.
Apesar da importância dos conservantes, alguns deles permanecem no centro de debates científicos e regulatórios. Os parabenos, por exemplo, são amplamente utilizados desde a década de 1930, mas estudos recentes apontam seu potencial como disruptores endócrinos, o que levou a limites mais restritivos em diferentes mercados. As isotiazolinonas, como MIT e CMIT/MCI, são reconhecidas como alérgenos de contato, motivando proibições e reduções de concentração em produtos leave-on na União Europeia, movimento parcialmente acompanhado pelo Brasil. Já os liberadores de formaldeído continuam sob investigação devido ao risco de sensibilização e à classificação do formaldeído como provável cancerígeno.
Com a agenda regulatória prevendo novas revisões nas listas de substâncias permitidas no Brasil, o setor cosmético se prepara para possíveis mudanças que podem afetar formulações e estratégias de mercado.
Mercado brasileiro
De acordo com o relatório Brazil Cosmetic Preservatives Market, da MarketsandMarkets, o segmento foi avaliado em US$ 35,9 milhões em 2026 e deve alcançar US$ 48,4 milhões até 2031, com uma taxa de crescimento anual composta de 6,2%.
A pesquisa também indica uma mudança relevante no perfil da demanda: cresce a preferência por conservantes naturais e multifuncionais, alinhados às tendências de beleza limpa e sustentabilidade. O relatório destaca que requisitos regulatórios rigorosos no Brasil têm acelerado a adoção de tecnologias preservantes mais avançadas, especialmente em categorias como cuidados com a pele, cabelos e maquiagem.

Derivados naturais
Dados da Kline mostram que ingredientes naturais e derivados naturais já representaram cerca de 69% do mercado global de ingredientes funcionais para cuidados pessoais em 2025, sendo 63% derivados de ingredientes naturais e 6% totalmente naturais, com ingredientes não naturais representando os 31% restantes. Também prevê que os ingredientes naturais devem crescer mais rápido, com um CAGR de 7,4% até 2030, contra 3,4% dos derivados naturais e apenas 2,2% para os não naturais.
Para a Kline, os preservantes acompanham o padrão. A previsão é que os antimicrobianos selecionados até 2030 derivarão de glicóis multifuncionais, 1,3-propanediol, 1,2-pentanediol e caprylylglicol, enquanto conservantes sintéticos tradicionais, como fenoxietanol, DMDM hidantoína e parabenos, crescerão mais lentamente ou até diminuirão. “Os formuladores estão trocando a química já estabelecida por alternativas alinhadas à natureza que entregam um rótulo mais limpo sem abrir mão da eficácia”, afirmou Shilpi Mehrotra, gerente sênior de projetos, produtos químicos e materiais da Kline.




