Estudo da Mintel mostra que demanda por cuidados com a barreira cresceu 88%, enquanto lançamentos avançaram apenas 13%.
A proteção da pele está passando por uma mudança de significado no mercado de skincare. Embora o uso de protetor solar tenha avançado e as rotinas de cuidados estejam mais sofisticadas, consumidores relatam cada vez mais pele reativa e sensibilizada. Um novo estudo da Mintel, realizado em parceria com a Black Swan Data, identifica nesse cenário uma oportunidade para a indústria: avançar da proteção contra agressões externas para produtos voltados ao fortalecimento da resiliência da própria pele.
A análise se concentra no mercado de skincare dos Estados Unidos e utiliza a metodologia Demand & Supply da Mintel, que cruza sinais de comportamento e conversas de consumidores identificados pela Black Swan Data com dados de lançamentos da Mintel GNPD. O objetivo é identificar categorias nas quais a demanda está crescendo mais rapidamente do que a oferta de novos produtos.
Demanda pela barreira cresce 88%
O principal descompasso identificado está nos produtos relacionados à barreira cutânea. Segundo os dados de junho de 2026, as conversas de consumidores sobre a barreira cresceram 88% nos dois anos anteriores, enquanto a oferta, medida pelos lançamentos de produtos, avançou apenas 13%. Para a Mintel, o movimento indica que o interesse dos consumidores está evoluindo mais rapidamente do que a inovação disponível nas prateleiras.
Mesmo com esse avanço da demanda, 33% dos produtos de skincare lançados em 2026 já apresentavam alegações relacionadas à barreira cutânea, mas grande parte ainda colocava o FPS como benefício principal e o suporte à barreira em posição secundária. A oportunidade identificada pela consultoria está justamente em inverter essa lógica e desenvolver produtos nos quais a resiliência seja a proposta central.
O estudo aponta que os consumidores passaram a relacionar proteção não apenas à prevenção dos danos solares, mas também à saúde e à qualidade da pele. Enquanto o FPS aparece como uma necessidade madura, de alto volume e crescimento praticamente estabilizado, a definição de proteção começa a incorporar preocupações com poluição, estresse oxidativo, condições climáticas extremas e luz azul.
Proteção dá lugar ao conceito de resiliência
É nesse contexto que a Mintel diferencia proteção, cuidado da barreira e resiliência. O cuidado da barreira está relacionado à manutenção da pele, enquanto a resiliência representa um passo adicional: melhorar sua capacidade de se adaptar e se recuperar diante das agressões. A mudança desloca o foco de simplesmente criar um escudo contra fatores externos para fortalecer os mecanismos de defesa da própria pele.
O avanço desse comportamento aparece também nos sinais analisados pela Black Swan Data. As conversas relacionadas ao fortalecimento da pele apresentaram crescimento de 12%, assim como aquelas associadas à perda transepidérmica de água, enquanto o interesse por produtos indicados para pele sensível avançou 7%. Em contrapartida, as conversas relacionadas à reparação da pele danificada recuaram 8%, reforçando a leitura de uma possível migração do cuidado reativo para estratégias preventivas de fortalecimento.
Séruns em spray e ectoína aparecem entre oportunidades
A análise também identifica formatos, ingredientes e benefícios com potencial de crescimento dentro desse território. Entre as alegações, Recovery Boost apresenta crescimento de 31%, Multi-Protection, de 27%, e Strengthens Skin Barrier, de 20%.
Nos formatos, os sinais são ainda mais expressivos. Serum Mist registra crescimento de 67%, seguido por Capsule Cream, com 54%, Spray Serum, com 49%, e Hydrating Balm, com 39%. Entre os ingredientes monitorados, a ectoína aparece com crescimento de 42%, seguida por carnosina, com 28%, ácido hipocloroso, com 21%, e ergotioneína, com 18%.
A Mintel recomenda que as marcas ampliem o cuidado da barreira para além dos hidratantes tradicionais, explorando mists, séruns, sticks e produtos corporais com FPS. A consultoria também aponta espaço para comunicar o fortalecimento da barreira de maneira preventiva e cumulativa, incorporando a resiliência à rotina diária em vez de limitar o benefício à reparação depois que a pele já foi comprometida.
Mercado começa a colocar barreira no centro das fórmulas
O levantamento mostra que algumas marcas já começam a tornar esse benefício mais explícito. A Mintel cita Clarins UV Plus Anti-Pollution Translucent Sunscreen SPF50+, que coloca o fortalecimento da barreira entre as principais alegações, e Susanne Kaufmann Ectoin Barrier Repair Moisturiser SPF 50, que posiciona diretamente a reparação e o fortalecimento da barreira como protagonistas.
Outros produtos ainda tratam o benefício de maneira secundária. É o caso do La Roche-Posay Anthelios UVAir SPF50+, no qual o suporte à barreira aparece associado à niacinamida e a alegações de tolerância, e do Supergoop! Protec(tint) Daily Skin Tint SPF 50, que destaca a ectoína principalmente em torno da defesa contra o estresse oxidativo.
Para Andrew McDougall, principal analyst da Mintel, o próximo estágio da inovação deve ir além de reparar a pele depois da exposição às agressões. A oportunidade está em desenvolver soluções capazes de prepará-la para lidar melhor com esses fatores, transformando a resiliência em uma evolução do conceito tradicional de proteção.
O estudo indica, portanto, uma mudança relevante para fabricantes de skincare: FPS e proteção externa permanecem importantes, mas podem deixar de ser suficientes como diferenciais isolados. Com a demanda por cuidados da barreira crescendo muito acima da oferta de lançamentos nos Estados Unidos, fortalecimento, adaptação e recuperação da pele despontam como um novo território para formulações, ingredientes, formatos e comunicação de produtos.



