Relatório da Mintel aponta espaço para cuidados noturnos mais transparentes, sensoriais e conectados a relaxamento, estresse e bem-estar.
O biohacking começa a avançar sobre uma nova dimensão das rotinas de beleza e cuidados pessoais: o sono. Um relatório da Mintel, com dados da Black Swan Data, mostra que práticas antes consideradas de nicho estão se tornando hábitos cotidianos, à medida que consumidores recorrem a dados, suplementos, dispositivos e diferentes protocolos para otimizar o funcionamento do corpo e da mente. Agora, a qualidade do sono surge como uma das novas fronteiras desse movimento.
Embora o levantamento tenha como base principal conversas relacionadas ao mercado de bebidas nos Estados Unidos, a Mintel também analisa as implicações da tendência para outras categorias, incluindo personal care. Para o setor cosmético, o movimento pode abrir espaço para uma nova geração de produtos e rituais noturnos que vão além da associação tradicional entre fragrância e relaxamento.
A análise foi construída a partir da capacidade de inteligência social da Black Swan Data, que identificou mais de 39 milhões de publicações online e em redes sociais, 10.768 tendências, 33 subdrivers e 12 grandes drivers de crescimento em dados de bebidas nos Estados Unidos ao longo de dois anos. A metodologia utiliza inteligência artificial para identificar sinais iniciais de demanda e estimar quais movimentos apresentam potencial de crescimento.
Sono se conecta a longevidade, estresse e performance
O relatório mostra que o biohacking não está relacionado a um único objetivo. Controle metabólico, redução do estresse, otimização hormonal, desempenho, cognição, humor, longevidade e sono aparecem de maneira interligada nas conversas analisadas.
No caso do sono, os consumidores estão acompanhando como nutrientes e compostos específicos podem influenciar os ciclos de descanso e recuperação. A Mintel define o chamado “sleephacking” como a prática de utilizar dados, suplementos e rotinas para otimizar a qualidade do sono, e não apenas sua duração. Entre consumidores norte-americanos de bebidas, as conversas sobre “sleep quality” cresceram 71% em um ano, sinalizando maior atenção à qualidade do descanso.
Essa evolução também muda a maneira como os consumidores procuram compreender os produtos associados ao período noturno. Segundo a Mintel, os chamados sleep biohackers estão demonstrando maior interesse pela própria biologia do sono e por mecanismos relacionados a neurotransmissores e hormônios do ciclo sono-vigília, em vez de buscar apenas soluções genéricas associadas à sedação. GABA, serotonina, magnésio e adaptógenos aparecem entre os elementos presentes nessas conversas.
Entre os sinais classificados pelo estudo como relevantes para acompanhar estão magnésio, camomila, GABA e neurotransmissores. Em uma perspectiva futura, aparecem também redução do estresse, glicina, eixo intestino-cérebro, pós-bióticos e controle do cortisol. O relatório aponta crescimento de 45% nas conversas relacionadas à redução do estresse e ao eixo intestino-cérebro, enquanto o controle de cortisol registra avanço de 55%.
Cosméticos podem avançar além da fragrância
É justamente nesse ponto que a Mintel identifica uma oportunidade para o mercado de cuidados pessoais. Historicamente, produtos voltados ao período noturno têm utilizado principalmente aromas e rituais sensoriais para comunicar relaxamento. O consumidor ligado ao biohacking, entretanto, passa a querer compreender melhor como o produto se relaciona com sua rotina antes de confiar na proposta.
Para as marcas de personal care, o relatório destaca que esse cenário representa um território relativamente novo. Ao mesmo tempo, existem limites importantes: as regulamentações de alegações cosméticas restringem até onde uma marca pode avançar ao comunicar mecanismos relacionados diretamente ao sono. Por isso, a Mintel aponta a transparência sobre os ingredientes, e não alegações clínicas, como uma das principais oportunidades para a categoria.
Essa perspectiva pode favorecer uma evolução na maneira como cosméticos destinados ao período noturno são formulados e comunicados. Em vez de depender apenas de conceitos genéricos de relaxamento, marcas podem explorar com maior clareza os ingredientes presentes nas fórmulas, a experiência sensorial e o papel do produto dentro de um ritual de desaceleração antes de dormir, sempre respeitando os limites regulatórios da categoria.
Cortisol e sistema nervoso entram no território do cuidado noturno
O próximo estágio identificado pela Mintel amplia ainda mais esse território. Estresse e saúde intestinal começam a aparecer na mesma conversa sobre qualidade do sono, com consumidores buscando uma abordagem mais integrada e interessada na conexão entre diferentes sistemas do organismo.
Para personal care, entretanto, a própria Mintel faz uma ressalva importante: saúde intestinal não possui uma tradução direta evidente para produtos tópicos. A oportunidade estaria, portanto, menos em reivindicar efeitos sobre o eixo intestino-cérebro e mais em incorporar elementos de sua linguagem de bem-estar, como sistema nervoso, cortisol e “soothing”, aos rituais cosméticos.
Entre os formatos mencionados pelo relatório estão óleos de massagem e sprays de magnésio, que podem integrar rituais de relaxamento e preparação para o descanso. A recomendação, porém, é evitar prometer mecanismos que o próprio formato cosmético não seja capaz de entregar.
Para a indústria de beleza, o avanço do sleephacking se conecta a movimentos mais amplos que já aproximam beleza, longevidade, bem-estar e personalização. O potencial está menos em transformar cosméticos em soluções para o sono e mais em reposicionar os cuidados noturnos dentro de rituais de recuperação, com formulações e comunicação que valorizem transparência, sensorialidade e uma explicação mais clara sobre a função dos ingredientes.
Nesse cenário, o consumidor orientado por dados e interessado em compreender mecanismos pode elevar também o nível de exigência sobre a comunicação das marcas. Para os cosméticos, a tendência sinaliza espaço para inovar em produtos voltados ao período noturno, desde que a evolução da narrativa seja acompanhada por clareza sobre ingredientes, coerência entre formulação e benefício e cuidado com as alegações utilizadas.


