Dow e Univar Solutions reuniram fabricantes e terceiristas para discutir o papel das marcas independentes na definição de tendências
Por Rodrigo Rezende
Há nove anos, a Apice Cosméticos nasceu como uma indie brand capixaba voltada para cabelos cacheados. Hoje, integra um grupo com nove marcas de beleza e mantém uma estratégia baseada na colaboração com fornecedores e terceiristas para ampliar a diferenciação de seus produtos. “Usamos parcerias com fornecedores e terceiristas para trazer diferenciação aos nossos produtos e complementar nossa infraestrutura interna”, afirma Fernanda Januário, do time de marketing da marca.
Foi para se aproximar dessas empresas que a Dow, fabricante de ingredientes, e a Ingredients + Specialties, da Univar Solutions, sua distribuidora, promoveram, em 30 de julho de 2026, o Inside Experience, no Latam Dow Center, em São Paulo. O evento reuniu cerca de 80 pessoas, incluindo fabricantes, terceiristas e influenciadores, em uma manhã dedicada a mercado, tendências, experiências sensoriais e comportamento do consumidor.
Inspirado no conceito Dow INside, o encontro mostrou como a ciência presente nas formulações pode se traduzir em benefícios percebidos pelos consumidores, como sensorialidade, performance, proteção, conforto e experiência de uso. “Este é o primeiro evento desse tipo que a Dow realiza no Brasil para reunir esse público e, pretendemos realizar em outras localidades”, afirma Daisy di Sanctis, líder de serviços técnicos e desenvolvimento da Dow. Segundo ela, a proposta foi mostrar como a companhia acompanha um segmento que “quer performance, quer sensorial e comunica muito bem com o consumidor” em diferentes plataformas, reconhecendo a velocidade de inovação que esse mercado exige.
Termômetro de tendências
Para a Dow, acompanhar esse segmento significa estar próxima de marcas que frequentemente identificam mudanças de comportamento antes de outros elos da indústria. As Indie Brands desempenham um papel importante como impulsionadoras de tendências. Pela agilidade para testar novos conceitos e tecnologias, conseguem validar movimentos rapidamente e gerar aprendizados que acabam influenciando todo o mercado, inspirando marcas de diferentes perfis e portes.
Para a Univar, essa agilidade também faz das marcas independentes um termômetro relevante para o mercado de beleza. Muitas delas surgem a partir da atuação de influenciadores e empreendedores, constroem comunidades engajadas e conseguem gerar visibilidade em torno de novos conceitos. “As indie brands ditam tendências, vêm de influenciadores e empreendedores e fazem barulho no mercado”, afirma Caroline Dametto, gerente de vendas técnicas da distribuidora.
Segundo ela, a velocidade de experimentação dessas empresas permite testar primeiro novas tecnologias e conceitos. Quando uma aposta se mostra consistente, o movimento passa a influenciar marcas de diferentes portes e perfis. A manhã teve ainda um panorama de mercado apresentado pela consultoria Mintel, com foco na importância da sensorialidade, e uma mesa-redonda com as criadoras de conteúdo Ana Percebom e Carla Ramalho. A conversa abordou como marcas expostas aos mesmos relatórios de tendência conseguem construir identidades próprias e desenvolver propostas distintas.

A colaboração com parceiros também integra a estratégia da Apice. “Não temos uma fábrica, temos nossos produtos”, afirma Patricia Trajano, especialista em pesquisa e desenvolvimento da marca, ao descrever uma característica presente desde a origem da empresa. Para Patricia, o evento contribuiu para aproximar marcas, fornecedores e terceiristas. “É importante conectar tecnologia, ingredientes e claims com a forma de vender. No final do dia, essa conexão será um diferencial para o produto. Conseguimos nos aproximar de alguns parceiros, fazer um network mais próximo e identificar novas oportunidades para diferenciar ainda mais nossos produtos”, acrescenta.
A ação faz parte de uma agenda mais ampla da Dow com esse público. Segundo a companhia, outro evento nos mesmos moldes está previsto para o México ainda neste ano.
Mesa-redonda
Na mesa-redonda, Carla Ramalho abriu a discussão com uma analogia sobre o risco de diferentes marcas se basearem nos mesmos relatórios de tendência. “Todo mundo viu as chuteiras da Copa, mas ninguém sabia de onde elas eram, porque todas eram pink. Todo mundo leu o mesmo relatório de tendência e não soube adaptar para a própria realidade”, afirmou. Para ela, o diferencial está na curadoria que cada marca faz a partir dos dados disponíveis. “O que daquela piscina de coisas que estamos vendo, daquela sopa de letrinhas, a sua marca consegue incorporar ao próprio contexto?”, questionou.
Ana Percebom abordou uma questão semelhante sob a perspectiva da formulação. Quando o laboratório reage apenas ao que o mercado já está fazendo, os produtos tendem a se aproximar das soluções oferecidas pela concorrência. “Às vezes, o que mais vejo é: ‘O cliente quer esse ingrediente, vamos ver o que os outros estão fazendo também’. E aí, de uma vez, todo mundo sai com as mesmas texturas, com as mesmas coisas”, disse. Na visão de Ana, a alternativa está em orientar a criação a partir da identidade e da estratégia de cada marca, transformando tendências em propostas próprias.

Beleza sensorial
O mercado de maquiagem já soma quase US$ 9 bilhões, impulsionado principalmente pelos produtos para lábios. A categoria cresce 6,9% ao ano e deve chegar a quase US$ 12 bilhões em 2030, segundo a Mintel. O body care também acelera, com US$ 10,5 bilhões em vendas e alta de 9,3% em 2025. O skincare facial aparece como a categoria de crescimento mais rápido do mercado, com expansão de 10,1%.
Para a consultoria, o apelo sensorial deixou de ocupar uma posição complementar e passou a integrar a expectativa central do consumidor. Historicamente, elementos como textura, toque e conforto eram apresentados como extensões da eficácia. Hoje, a experiência de uso participa diretamente da percepção de valor dos produtos. Parte desse movimento está associada ao excesso de exposição digital.
A busca por toque, textura e conforto físico pode ser interpretada como uma resposta a uma rotina cada vez mais mediada por telas e experiências bidimensionais. Não por acaso, 48% dos homens no Chile afirmam escolher produtos de banho pela textura, enquanto 50% dos brasileiros consideram importante que as marcas tenham uma loja física além do site. Os dados reforçam o papel do varejo como ponto de conexão sensorial e experiência de marca.
Essa conexão também alcança o bem-estar. Entre os brasileiros que buscam longevidade da pele, 52% afirmam querer melhorar igualmente a saúde mental, sinalizando que a sensorialidade se relaciona a uma visão mais ampla de cuidado, que reúne estética, conforto e equilíbrio emocional. Se as indie brands se consolidaram como importantes impulsionadoras de transformação na indústria da beleza, a mensagem central do evento foi a de que inovação resulta da colaboração entre diferentes atores. Marcas, formuladores, fabricantes, distribuidores e terceiristas contribuem para transformar tendências em produtos e experiências relevantes para o consumidor.



