Em um mercado cada vez mais orientado à personalização, o verdadeiro diferencial talvez não esteja na exclusividade, mas na capacidade de criar significado.
O Brasil é hoje o segundo maior mercado global de fragrâncias. E o interesse do consumidor pela categoria continua crescendo. Segundo a Euromonitor, a categoria de fragrâncias apresentou o melhor desempenho dentro do mercado de beleza e cuidados pessoais em 2025, com crescimento de 10% e vendas superiores a R$ 50 bilhões.
Mas o dado que talvez melhor explique essa força não esteja nas vendas, e sim no vínculo emocional que os consumidores constroem com o perfume. Segundo a Mintel, 45% dos brasileiros afirmam que seu perfume favorito é uma parte importante da sua identidade.
E é justamente aí que começa uma das discussões mais interessantes da perfumaria atual.
Recentemente, li uma matéria sobre a XIA Perfumes, uma empresa espanhola que utiliza inteligência artificial para criar fragrâncias exclusivas para cada consumidor. A lógica é direta: a partir de informações sobre personalidade, emoções, preferências e estilo de vida, a tecnologia desenvolve um perfume único para cada pessoa.
À primeira vista, parece uma evolução natural de um mercado cada vez mais orientado à personalização. Durante décadas, a indústria trabalhou com segmentação. Criava produtos para grupos de consumidores com características semelhantes. Agora, a tecnologia começa a tornar possível algo diferente: criar produtos para indivíduos.
Mas a notícia me fez pensar em uma questão maior. Se a tecnologia finalmente permite criar um perfume único para cada pessoa, por que a perfumaria parece caminhar simultaneamente em outra direção?
Enquanto empresas investem em inteligência artificial e hiperpersonalização, vemos marcas de luxo ampliando seus investimentos em fragrâncias, perfumarias de nicho ganhando relevância e consumidores buscando cada vez mais construções olfativas carregadas de significado.
A Bottega Veneta, por exemplo, acaba de lançar a coleção Alta, composta por dez fragrâncias que combinam ingredientes italianos com matérias-primas de diferentes partes do mundo. Há perfumes inspirados em sorvete italiano, outros que unem manjericão e vetiver de Madagascar, oud asiático, açafrão e benjoim vietnamita.
O ponto não está apenas na combinação de ingredientes. Está na forma como a marca transforma matérias-primas em repertório cultural. A fragrância deixa de ser apenas um produto e passa a funcionar como uma extensão dos códigos da Maison, conectando identidade, origem e narrativa.
A Jo Malone seguiu um caminho igualmente curioso ao apresentar uma coleção inspirada em ingredientes pouco convencionais para a perfumaria, como tomate, cenoura, beterraba e abóbora.
Poucos consumidores diriam espontaneamente que desejam um perfume de tomate. Mas é justamente aí que está o ponto. A coleção não responde a uma necessidade funcional. Ela cria curiosidade, conversa, descoberta e experiência.
O movimento também aparece entre as grandes Maisons. A Jean Paul Gaultier anunciou recentemente Les Ateliers Gaultier, uma coleção inspirada no universo da alta-costura e posicionada em um patamar mais elevado dentro do portfólio da marca.
Mais do que lançar novos perfumes, a marca reforça um movimento observado em diversas casas de luxo: utilizar a perfumaria como uma porta de entrada para universos simbólicos mais amplos. Nem todos podem comprar uma peça de alta-costura, uma bolsa ou um acessório de luxo. Mas uma fragrância permite acessar parte daquele universo, seus códigos, sua estética e sua promessa de pertencimento.
Esse movimento também aparece nos dados de mercado. Segundo a Euromonitor, as fragrâncias árabes estão ajudando a redefinir a relação dos brasileiros com o perfume, migrando de um consumo ocasional para um hábito cotidiano. Mais do que uma tendência olfativa, o fenômeno reflete uma mudança de comportamento: fragrâncias passam a ser incorporadas à rotina como forma de expressão pessoal e construção de identidade.
Não por acaso, a categoria também vem sendo impulsionada pela descoberta digital e pelo social commerce, reforçando o papel do perfume como ferramenta de expressão individual.
No Brasil, esse movimento também ganha força. A expansão da perfumaria de nicho mostra que existe um público crescente interessado em fragrâncias menos óbvias, mais autorais e conectadas à expressão individual.
Marcas como a Becquer ilustram esse movimento ao transformar a perfumaria em uma experiência de descoberta. Mais do que vender fragrâncias, a proposta passa por estimular memórias, criar conexões emocionais e incentivar que cada consumidor construa sua própria relação com o perfume.
Curiosamente, quanto maior a oferta de produtos, maior parece ser a busca por identidade.
Isso acontece porque perfumes nunca foram apenas fragrâncias. Eles carregam histórias, memórias, aspirações e pertencimento. Ajudam a comunicar quem somos, como queremos ser percebidos e a quais universos desejamos estar associados.
No fundo, o consumidor quer um perfume que fale sobre ele, mas também conte uma história da qual ele queira fazer parte. Talvez por isso a grande disputa da perfumaria não esteja apenas entre marcas, ingredientes ou tecnologias. Esteja entre personalização e significado. Talvez por isso a personalização, sozinha, não seja suficiente.
Um algoritmo pode criar uma fragrância perfeitamente adaptada às minhas preferências. Mas dificilmente conseguirá reproduzir o valor simbólico de uma marca, a emoção despertada por uma memória olfativa ou o significado cultural que determinadas fragrâncias carregam.
No fundo, o que observamos hoje é um paradoxo interessante. Ao mesmo tempo em que buscamos individualidade, continuamos procurando referências compartilhadas. Queremos algo que seja nosso, mas que também nos conecte a algo maior do que nós mesmos.
Enquanto a tecnologia promete criar fragrâncias cada vez mais personalizadas, as marcas seguem investindo em narrativas, experiências e símbolos coletivos. A próxima fronteira da perfumaria talvez não esteja em criar fragrâncias mais exclusivas, mas em criar fragrâncias mais significativas.
Em um mundo onde algoritmos conseguem replicar preferências, o diferencial competitivo passa a estar naquilo que não se automatiza facilmente: cultura, narrativa, memória, marca e desejo coletivo. A inteligência artificial pode criar um perfume único para cada pessoa. Mas transformar esse perfume em objeto de desejo continua sendo uma construção profundamente humana.
E talvez seja aí que esteja o futuro da perfumaria: no equilíbrio entre a individualidade que buscamos, os significados que construímos e o pertencimento que continuamos desejando.
Elaine Gerchon é especialista em Consumer & Market Insights, com foco em comportamento, consumo e leitura estratégica de mercado nos setores de beleza e cuidados pessoais. Com mais de 15 anos de atuação, trabalha na tradução de dados e tendências em decisões de inovação, posicionamento e crescimento, com olhar para a dinâmica do consumo na América do Sul.




