Pesquisa destaca recursos táteis, facilidade de manuseio e informações claras para embalagens mais inclusivas em diferentes setores
A acessibilidade vem ganhando relevância no desenvolvimento de produtos de consumo. Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificou características que podem ampliar a autonomia de pessoas com deficiência visual na avaliação, identificação e escolha de diferentes produtos.
Os resultados trazem implicações para setores como alimentos e bebidas, suplementos e produtos nutricionais, cosméticos, higiene pessoal, limpeza e cuidados com o lar. Recursos como rótulos táteis, embalagens mais fáceis de manusear, descrições detalhadas e tecnologias assistivas estão entre as alternativas apontadas para tornar a experiência de consumo mais acessível.
Intitulada “Pontos cegos no design de produtos: a interação entre escolhas utilitárias e hedônicas, processos psicológicos e estratégias de varejo para consumidores com deficiência visual”, a pesquisa mostra que participantes com deficiência visual atribuíram maior importância a características funcionais e a informações capazes de facilitar a compreensão e a comparação entre produtos.
Essa demanda pode assumir diferentes formas conforme a categoria. Em alimentos e bebidas, informações sobre ingredientes, preparo e conservação são relevantes para a escolha e o consumo. No segmento de nutrição, dados sobre composição, porções e formas de utilização ocupam papel importante. Já em cosméticos e produtos para o lar, a identificação de variantes, finalidades e modos de aplicação pode facilitar a diferenciação entre itens de uma mesma linha.
Entre consumidores sem deficiência visual analisados no estudo, aspectos relacionados à estética, à experiência e ao prazer apresentaram maior relevância. Os resultados reforçam a possibilidade de combinar atributos sensoriais e visuais com soluções funcionais que atendam diferentes necessidades.
O trabalho foi desenvolvido por Bruno Veneziano Cornacchioni, Flávio Santino Bizarrias, Evandro Luiz Lopes e Marcelo Luiz Dias da Silva Gabriel, da ESPM, além de Ricardo Limongi, da UFG. Ao longo de três experimentos, os pesquisadores investigaram como limitações no acesso às informações visuais podem influenciar a percepção e a decisão de compra.
Em uma das etapas, 104 participantes avaliaram os benefícios percebidos de diferentes atributos. Em outro experimento, realizado com 31 pessoas com deficiência visual, 23 escolheram a alternativa mais funcional, enquanto oito optaram pela versão direcionada à experiência sensorial.
Na avaliação da comunicação, 24 participantes preferiram uma abordagem informativa, enquanto sete escolheram a alternativa sensorial. Os dados indicam que clareza, funcionalidade e facilidade de compreensão podem exercer papel relevante na relação desse público com produtos e marcas.
“A pesquisa mostra que inclusão também passa pela forma como os produtos são pensados e apresentados. Informações claras sobre características, funcionamento e benefícios ajudam a reduzir dúvidas e dão mais autonomia para a escolha”, afirma Bruno Veneziano Cornacchioni, mestre pelo Programa de Pós-Graduação Profissional em Marketing e Comportamento do Consumidor da ESPM.
Acessibilidade desde o desenvolvimento
Para as indústrias de alimentos, nutrição, beleza e cuidados com o lar, os resultados reforçam a importância de considerar a acessibilidade desde as primeiras etapas de desenvolvimento. Design, embalagem, formato, abertura, manuseio, comunicação e identificação tátil podem ser avaliados em conjunto para reduzir barreiras de consumo.
A participação de pessoas com deficiência visual nos processos de criação e testes também pode contribuir para identificar dificuldades que nem sempre são percebidas pelas equipes responsáveis pelo desenvolvimento de produtos.
“Não se trata de dizer que pessoas com deficiência visual não valorizam marcas ou experiências sensoriais. O resultado mostra que informações que ajudam a entender, comparar e confiar no produto ganham relevância na decisão”, acrescenta Cornacchioni.
O estudo amplia, portanto, a discussão sobre inclusão para diferentes mercados de consumo e indica que acessibilidade, funcionalidade e experiência podem ser trabalhadas de forma integrada no desenvolvimento de alimentos, suplementos, cosméticos e produtos para cuidados com o lar.



